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12/07/2017

Brasileiros buscam Vale do Silício

Não há hoje no País soluções que atendam às demandas por tecnologia de empresas globais
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Embraer, em parceria com o Uber, está desenvolvendo pequenos veículos elétricos com decolagem e aterrissagem vertical/Divulgação
São Paulo - Os pequenos veículos elétricos com decolagem e aterrissagem vertical para serem usados nas cidades que a Embraer está desenvolvendo em parceria com o Uber ainda não saíram dos computadores dos engenheiros, mas representam exatamente o que a fabricante de aviões procurava em seu recém-aberto Centro de Inovação de Negócios nos Estados Unidos: investir em inovação disruptiva, aquela tão revolucionária que mexe com todo o mercado.

Essa foi a mesma estrada escolhida pela Totvs e pela CPFL, quando perceberam que precisavam de novidades. Seguiram rumo ao Vale do Silício. Foi do braço californiano da empresa brasileira de tecnologia, hoje com 20 funcionários, por exemplo, que saiu a Carol, uma plataforma de inteligência artificial. Lançada este mês, ela dá dicas de gestão, responde a perguntas e fornece insights de negócios. Já a CPFL achou na meca dos inventores sua solução em smart grid, sistemas de distribuição e transmissão de energia elétrica inteligentes.

“Como uma empresa global, em um ambiente altamente competitivo, temos nossa base no Brasil e centros de pesquisa e desenvolvimento também na Ásia, Europa e Estados Unidos”, diz o vice-presidente executivo de operações da Embraer, Mauro Kern. “Temos de estar presentes nos lugares onde esse tipo de inovação acontece.”

A busca por soluções no exterior não é fortuita. Apesar de exceções em poucas áreas de excelência, não há hoje no País soluções que atendam às demandas por tecnologia de empresas globais, dizem vários especialistas. “Ficamos à margem de processos tecnológicos de novos paradigmas de produção e integração entre fornecedores e clientes que ganharam velocidade depois da crise de 2008 no mundo”, diz o coordenador do Grupo de Indústria e Competitividade da UFRJ, David Kupfer. “Isso não só na indústria, mas também nos serviços, que são ainda mais atrasados no Brasil.”

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Década encolhida
- As dificuldades trazidas por esse cenário são sentidas na prática pelas empresas, inclusive as com tradição em pesquisa. “No Brasil, pegamos pessoas com boa formação e investimos muito em sua qualificação”, diz o vice-presidente de tecnologia da Totvs, Weber Casanova. “No Vale do Silício, há muitos especialistas já prontos, experientes, com uma enormidade de novas ideias e recursos, em um ambiente de trabalho muito mais fácil do que aqui.”

Por outro lado, novidades como internet das coisas, inteligência artificial, analytics, big data, manufatura aditiva, nanotecnologia, entre outras, estão fora do radar da maioria das empresas. “Algumas estão mais antenadas e realizando esforços claros no sentido dessa modernização, mas não é um movimento geral”, afirma Kupfer. “Ao contrário, já que há 10 anos o investimento tem se contraído.”

Uma realidade nova, com cara de passado. “O Brasil está perdendo o próximo salto tecnológico, é sempre bom lembrar, porque já estávamos muito para trás”, diz o professor da USP e pesquisador do Observatório de Inovação e Competitividade do Instituto de Estudos Avançados, Glauco Arbix. “Produzir conhecimento de fronteira não é uma atividade de curto prazo, nem nas empresas e muito menos na universidade: a estabilidade de políticas públicas e de funding é essencial”.

Só que, afirma Arbix, com o encolhimento da economia “e a crise política que parece não ter fim”, tudo tende a piorar. Com desafios mais primários com os quais se preocupar, inovação torna-se um luxo para a maior parte das empresas. Uma pesquisa da consultoria BCG constatou que o porcentual de companhias brasileiras que pretendiam investir mais do que no ano anterior em inovação passou de 74%, em 2015, para 56%, neste ano. “Por causa da crise, os empresários entram no modo sobrevivência”, diz o sócio da BCG, Heitor Carrera.

Há vários riscos nesse cenário e algumas oportunidades (ler a seguir). Do lado das ameaças, os especialistas esperam uma redução dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento, hoje em 1,26% no que se refere ao PIB e já considerado baixo em relação aos países em desenvolvimento.

Outro problema é a possibilidade de o Brasil se tornar, mais uma vez, apenas consumidor dessas tecnologias. “Vamos nos atrasar novamente, até que o hiato de produtividade seja tão grande que leve a uma onda rápida de aquisição de pacotes de máquinas e insumos”, diz Kupfer. “Depois que a tecnologia ganha volume, ela é incorporada e vamos comprá-la embutida nas máquinas, sem desenvolver a capacidade de inovação.”

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