26/02/2016 - Mesmo com crise falta mão de obra

Em evento transmitido pela internet, o professor da Fundação Dom Cabral (FDC) Paulo Resende apresentou a palestra “O paradoxo brasileiro na mão de obra”, fundamentado na Pesquisa de Qualificação Profissional no Brasil, realizada pela FDC. Os dados das 201 empresas respondentes foram colhidos em 2015. A primeira versão da pesquisa foi realizada em 2012. O estudo mostrou que 47,3% das empresas tiveram dificuldades de contratação no Brasil. 53% delas acreditam que o Brasil tem uma oferta média de mão de obra qualificada e apenas 19% acreditam em uma alta oferta. “Em 2012 tínhamos uma situação de pleno emprego e ausência de oferta de mão de obra, ou seja, não tínhamos a qualificação da mão de obra no sentido qualitativo e nem no quantitativo. Era o chamado ‘apagão da mão de obra. Dessa vez é diferente. Vivemos o cenário paradoxal em que, mesmo com o crescimento do desemprego, não temos oferta de mão de obra qualificada. Esse é o pior cenário que pode acontecer a um País que quer se desenvolver com base em uma mão de obra qualificada e empregada”, explica Resende. No quesito “motivos que levam à dificuldade na hora de contratar”, as respostas se concentraram em dois pontos: deficiência na formação profissional básica, com 48,3%, e falta de experiência na função, com 40,8%. E as áreas que mais padecem com essas dificuldades são o chão de fábrica, com 29,4%; a comercial, com 22,9%; e a logística, com 22,4%. “Isso mostra que precisamos modernizar e atualizar, com urgência, nossos currículos universitário e técnico. A situação é muito séria. Por mais difícil que seja, as empresas precisam continuar investindo em treinamento nesse período de crise econômica”, alerta o professor da FDC. 40% dessas empresas possuem uma alta parcela de contratados que passaram por programas de capacitação e apenas 8% relataram não ter nenhuma parcela que passou por capacitação. Já as faixas etárias predominantes nas contratações são de 30 a 39 anos, com 52,7%; e de 18 a 29 anos, com 45,3%. Apenas 1,5% dos contratados está entre os 40 e 49 anos. “Os números demonstram que precisamos olhar com cuidado para uma população que envelhece e isso trará uma grande dificuldade sobre a qualificação da mão de obra no futuro, além dos impactos sobre a Previdência”, destaca. Retenção - Em um cenário de mão de obra qualificada escassa, a retenção de talentos é fundamental para a perenização dos negócios. 78,1% das empresas dizem ter programas de benefícios visando à retenção de profissionais. Esses benefícios visam, principalmente, aos profissionais-chave que possuem conhecimento crítico e amplo dos processos internos da empresa. 39,3% visam reter profissionais talentosos. 67,9% profissionais-chave que possuem conhecimentos críticos. E 60,7% profissionais de nível estratégico. “O conhecimento crítico é aquele que está dentro das pessoas. É um erro grande dispensar esse profissional por uma questão de corte de custos. É muito difícil e caro recuperá-lo. As empresas precisam ter um plano detalhado de capacitação dos seus executivos e não podem partir do pressuposto de que os currículos estejam atualizados o suficiente para entregar profissionais prontos para o mercado”, conclui o professor.