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Opinião

18/03/2014

Absurdo atrás de absurdo

Cesar Vanucci*
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"Mais difícil quebrar um preconceito do que um átomo!" (Albert Einstein)



Os números vindos a seguir estampam um acúmulo inimaginável de absurdos. São típicos deste mundo em que vivemos, surreal sob tantos aspectos.

Dan Akerson, antigo presidente mundial da General Motors, embolsava salário de 9 milhões e 100 mil dólares anuais. Ou seja, 21 milhões, 840 mil reais. Deixou a função para continuar prestando consultoria à própria montadora por "módicos" 4 milhões e 600 mil dólares por ano. Em nossa moeda algo equivalente a 11 milhões. Quem passou a ocupar, com sua saída, a presidência da empresa, foi a engenheira Mary Barra, primeira mulher no comando da organização, contratada com o salário de 4 milhões e 400 mil reais, inferior à remuneração atual de seu antecessor pelas tarefas de consultoria.

As primeiras situações absurdas detectadas decorrem, naturalmente, dos valores que acabam de ser enunciados. São valores que escancaram a abissal diferença existente, a bem da verdade em tudo quanto é lugar, entre quem é colocado no topo e quem é colocado no piso do sistema salarial vigente, mesmo que não saibamos neste momento qual vem a ser o salário mínimo na GM. Não fica difícil pra ninguém comprovar o desnível injusto dos padrões salariais adotados tanto em organizações públicas quanto privadas. Trata-se de uma insensatez que, nalgum momento futuro da trajetória humana, terá que ser fatalmente corrigida.

Cabe registrar agora outra absurdidade. O salário que a GM pagava ao antigo presidente é infinitamente superior ao que ora é pago pelas mesmíssimas tarefas à presidenta, um e outro, já visto, elevadíssimos. O episódio é revelador de uma tendência universal, inexplicável à luz do bom senso, de se atribuir gratificação diferenciada ao esforço produtivo de homens e mulheres. Tudo funciona naquela manjada base daquele refrão publicitário antigo, bem maroto, de uma marca de chocolate, que distribui um "delicado" pra elas e dois ou muito mais "delicados" pra eles. Prática genuinamente machista provinda de tempos antediluvianos, incompatível com tudo aquilo que as lideranças costumam teorizar, em ocasiões solenes, na exaltação dos princípios fundamentais que conferem dignidade à pessoa humana.

A disparidade salarial foi classificada, dia desses, pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, como um "constrangimento". A mulher - asseverou - merece o mesmo pagamento pelo mesmo trabalho. A jornalista Mariana Queiroz Barbosa menciona o fato em reportagem da "Isto" repleta de registros numéricos comprobatórios do abismo salarial prevalecente entre homens e mulheres.

Creio que o leitor concordará com a observação de que a expressão "constrangimento" é por demais branda para classificar o que realmente rola no pedaço. O que os dados levantados pela jornalista projetam deve ser definido como um despropósito sem tamanho. Como uma indecência. Vejam só se não tenho razão! No mundo de hoje a distância remuneratória entre gêneros é, em média, de 22.8%. No Brasil, o indicador é um pouco maior: 27%. Há 10 anos, segundo a OIT (Organização Internacional do Trabalho), a coisa mostrava-se pior ainda: 36.4%. Santa Catarina é o Estado com a diferença mais gritante: 34.2%. Já o Amapá, surpreendentemente, é a unidade da Federação que registra a diferença menor: 6.7%.

Para reflexão geral seguem mais esses elementos informativos. Praticamente em todas as partes do planeta o abismo salarial entre homens e mulheres, mal ou bem, tem decrescido. Menos - ora, veja, pois! - em Portugal, onde só tem feito crescer de ano para ano. Na Itália, a diferença fica abaixo de 10%. Nos Estados Unidos chega a 23%. Na União Europeia cai: 16.2%. Mas isso não impede que na Alemanha e na Inglaterra atinja mais de 20%.

Recordando o empenho incessante, muitas vezes infrutífero, dos homens e mulheres de boa vontade no sentido de libertar o mundo dos grilhões dos inúmeros preconceitos odiosos que o asfixiam, entre os quais se avulta o machismo, caracterizado aqui numa de suas facetas mais notórias, somos levados a um registro lapidar de alguém nada menos que Albert Einstein: "poca triste a nossa em que é mais difícil quebrar um preconceito do que um átomo".


* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)



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